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Quinta-feira, 08.03.12

Um adultério


Por Dany Wambire - Beira

Mal a criança veio ao mundo, acorreram à obsoleta e isolada palhota mulheres de segunda e terceira idade, com o intuito de se congratularem pela novata, a petiza recém-chegada do ventre de Isaura.

A Isaurinha nasceu, num dia ameno de verão, com quilos normais, debaixo de um embondeiro. E teve como espectadores desatentos os bois que desfrutavam da liberdade do maianga. Ajudou, no parto, a mulher velha e muito experiente nos partos caseiros da região.

Antes, a parturiente tinha sido acometida por umas dores fortes de cortar à faca, com as quais os nervos lhe reprimiam e deconstrolavam o cérebro. Propalava-se que algo de anómalo persistira naquele primeiro parto da Isaura. Mas felizmente, a Isaurinha nasceu, e nasceu viva. 

Logo que veio ao mundo, a bebé foi submetida a um banho de água fria, que era como o seu visto de boas vindas a este mundo. E meteram-lhe pela boca adentro os miúdos mamilos da Isaura, para a Isaurinha mamar. Eram assim as regras da tradição local.

 Passadas algumas horas, a bebé ainda se resignava com o leite da mãe. Mas, instantes depois, a Isaurinha era acometida por convulsões e entontecimento na sua cabecita. Aperceberam-se todas de que algo de anormal estava, veementemente, a suceder. Reunidos os sogros da mãe Isaura, junto da sua família, não conseguiram descortinar o acontecimento. Portanto, precisavam, agora, de alguém com poderes superiores ou mediadores; de alguém idóneo para entender e explicar o sucedido; de alguém que pudesse atalhar aquela triste cena. Certamente, tinha que ser a Matembo, a adivinha de mérito invejável, na região e não só.

Encaminharam-se então para a casa dela, e a acompanhante matrona se dirigiu à Matembo:

― A nossa criança nasceu, mas não mama. Recusa o leite da mãe, e bamboleia-se esquisitamente. Algo de estranho subsiste, e não sabemos o que é.

A adivinha, que era velha, entendendo a estória, vestia-se, lentamente, das suas matchiras coloridas de vermelho, preto e branco. As fortes tremuras nas mãos deixavam-na em apuros. Era tão velha, que os dentes lhe haviam despovoado quase a boca toda, agora movediça. Pegou na sua vassoura mágica, borrifou violentamente as coitadas, e, em seguida, solicitou-lhes, de novo, a inquietude. As coitadas estavam cada vez mais apreensivas, com as convulsões acrescidas da Isaurinha. A matrona voltou a explanar-lhe, escrupulosamente, a razão da sua presença, naquela palhota esquisita do sul.

 ― Viemos para aqui, porque a Isaura deu à luz. Nasceu a Isaurinha. Sujeitámos a pequena a um banho com água fria, análogo ao que os nossos antepassados nos fizeram a nós, quando nascemos. Depois, abonámos-lhe os mamilos da mãe, para mamar, mas ela se recusou. Na nossa tradição, isto é mau.

A adivinha, que acompanhava a sábia explanação da matrona, não precisou de outros detalhes, senão de pegar nos seus adivinhos e baralhá-los com subtileza. As pedrinhas espalharam-se no chão, em forma de triângulo. No vértice de cima, posicionava-se uma mulher; e nos sobrantes vértices, dois homens. A Matembo aclarou, de imediato, o posicionamento dos amuletos:

- Vejo, nestas pedrinhas, dois homens e uma mulher.

 E logo de seguida indagou a Isaura:

― Não andaste com outro homem, para além do teu marido?

― Não ― respondeu a Isaura, um pouco tímida na alma.

As outras olhavam-na, com cepticismo. A Matembo, aproveitando-se do enleio da paciente e da sua confiança nos seus amuletos, insistiu:

― Tens a certeza de que não andaste com outro homem diferente do habitual? Aqui os meus adivinhos dizem que «sim», que andaste.

Na Isaura, via-se a querença de redizer o «não» à curandeira. Mas, antes de proferir a resposta repetida, a mãe instou-a para que dissesse a verdade:

― Revela, Isaura, para resolvermos, duma vez por todas, o problema.

― Sim, andei com o Saquene

Então, a adivinha suspirou, num vazio, como se estivesse a afundar todo o ar:

- Hum…hum…! Andaste com Saquene, além do teu marido… o Saquene, o homem complicado e também de família complicada!

E, com aquele jeito reticente, para forjar hipocrisias ou verdades, a Matembo concluiu:

― O espírito perverso da família de Saquene é que impede que a criança mame. Quer que ela pereça. Vocês devem arranjar um outro nhamussoro, que não eu, para dialogarem com esse incerto espírito, que inquieta esta criança, e conseguirem que a Isaurinha mame.

No dia seguinte, a Isaurinha continuava a se ressentir das convulsões. As mulheres que tinham ido congratular-se pela pequena, e que a tinham acompanhado à consulta da adivinha Matembo, percorreram um trilho poeirento, até encontrarem um nhamussoro especialista em casos do género, apto a mediar o diálogo com a família do Saquene. Andavam depressa, para evitar o pior. Descansavam um pouco, sempre que necessitassem de um descanso merecido.

Chegaram, finalmente, à casa caduca de uma nhamussoro, que tardou a atendê-las. Só muito depois é que ela entrou atabalhoada na sala de consulta, porque viu a gravidade da Isaurinha.

De novo aconteceu a pronta explanação do sucedido. Depois, a mediadora emendou-se nas súplicas:

― Siavuma sô Saquene…siavuma sô Saquene. Sou eu a Mazuiracha, na voz da Isaurinha, filha sua, sô Saquene. Vim dialogar consigo, sô Saquene. Vim incomodá-lo. A Isaurinha nasceu, mas recusa o leite da mãe, e pesa o vosso nome nisso aí. Que é que o incomoda, sô Saquene?

Não tardou que o ascendente mais antigo da família Saquene lamentasse:

― Vocês brincaram com a minha família, meteram-se com o nosso filho, fora do casamento, e sem tencionar coisas sérias.

― Sim, sabemos! É por isso que estamos aqui. Que é que cobiçais como desculpa?

― Avancem e peguem em três matchiras de cores diferentes, para mim. Coloquem o dembace junto com farelo. Deixem junto de um cabrito à solta, e... é só isso.

Parece que o ancestral sentiu ou viu a gravidade da situação da petiza, para ser tão pronto na solução. No dia seguinte, fizeram o que ele pediu. E só depois disso é que a Isaurinha mamou.   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por oprosador às 18:50





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